Narrativas arqueológicas e museológicas sob rasura

provocações feministas

  • Camila A. de Moraes Wichers Universidade Federal de Goiás

Resumo

Historicamente, as práticas arqueológicas e museológicas estiveram associadas à construção de identidades nacionais, nas quais despontava uma forma de cidadão pleno: homem, branco, heterossexual e proprietário. Nesses contextos, as narrativas elaboradas pela Arqueologia e pelos museus podem ser compreendidas como mais um eixo de normatização e opressão.  Nesse texto, percorro as reciprocidades entre a Arqueologia de Gênero e a Arqueologia Feminista, trazendo algumas provocações feministas inspiradas em abordagens queer e decoloniais no que concerne à construção de identidades e representações. Destaco, ainda, a necessidade de narrativas plurais e descentradas, constantemente deslocadas e recriadas nos processos de Musealização da Arqueologia.

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Professora Adjunta da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Atuo no Bacharelado em Museologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

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Publicado
2017-12-21
Como Citar
WICHERS, Camila A. de Moraes. Narrativas arqueológicas e museológicas sob rasura. Revista de Arqueologia, [S.l.], v. 30, n. 2, p. 35-50, dez. 2017. ISSN 1982-1999. Disponível em: <http://revista.sabnet.com.br/revista/index.php/SAB/article/view/543>. Acesso em: 25 fev. 2018. doi: https://doi.org/10.24885/sab.v20i2.543.